De Olhos Fechados


“Colocarei essa venda para que não abra os olhos. Não saberá onde estou nem o que vou fazer. Terá que confiar em mim.”

As mãos suavemente deslizaram pelo rosto após prender cuidadosamente o tapa olho. Eric apreensivo não imaginava o desfecho da brincadeira mas a coragem tinha um pouco de excitação. Que loucura aquela mulher estaria tramando? Pouca luz, som ambiente, aromatizadores e a proposta para brincar de jogo da verdade.

“O que você está fazendo?”

“Já vai saber!”

“Primeira pergunta: quem é você?”

“Como assim, quem sou eu? Isso não vale. Pergunta boba!”

“Você concordou com a brincadeira… se não sabe responder conto como ponto negativo e quem tiver mais paga uma prenda.”

“Eu passo. Agora é minha vez! Quem é você?”

“ Quanta falta de imaginação! Eu sou uma amiga que você adora e não consegue esquecer.”

“Isso não vale!

“Porque não? Vale sim. A pergunta é abrangente.”

“Está bem! Pergunte algo válido.”

“Qual a sua melhor lembrança?”

“São tantas lembranças… Não dá para definir a melhor… Quando peguei meu afilhado pequenininho no colo pela primeira vez! Qual é a sua melhor lembrança?”

“Não cansa de imitar? Lembro quando ficava sozinha na área de serviços, aos quatro anos, montando um quebra-cabeça gigante da Turma da Mônica.”

“Por que inventou esta brincadeira? Onde quer chegar?”

“Agora sou eu e é uma pergunta de cada vez! Sei que namorou muito e que é homem de manter vários relacionamentos ao mesmo tempo, sem ofender! Quais mulheres que te marcaram?”

“Está certo, vou responder. Uma delas foi você! Namoramos por pouco tempo mas toda vez que te via batia a curiosidade, te achava mais bonita, mais atraente.”

“Por quê?”

“Ah, agora sou eu que pergunto. Por que você está me perguntando essas coisas?”

“Desconfiado… Para conhecê-lo melhor. Saber o que sente de verdade.”

“Tenho um jogo melhor!” – Eric aperta a amiga contra o peito e esta está com os seios descobertos, num reflexo põe as mãos no rosto para se desembaraçar da venda mas é contido pelas pequenas mãos suaves.

“Não tire. Apenas sinta e não faça nada! Somente sinta.”

Encontros furtivos podem mascarar sentimentos reais? Para Eric o momento é eterno e deve ser bem aproveitado com uma pessoa agradável. O amor existe de diversas formas mas ele sabe muito bem apreciar a beleza. O belo o atrai, talvez seja por isso que atrás de si tenha uma legião de fãs. Esta amiga o intriga, ela vem e some como o vento. Varre seus sentidos e deixa apenas a sensação de vazio. Olhando-a nos olhos é capaz de amá-la mas mantendo distância podia desprezá-la. Torturadora ou torturado? Neste instante ela estava ali, em seus braços, dominada pelo seu desejo.

Só haverá lembranças ao amanhecer. O gosto da saudade ainda está nas taças de vinho. Sonhar que de alguma forma tem o poder da situação faz com que se sinta melhor. Sabe que não a terá. Traiu sua confiança no namoro adolescente no qual não soube compreender o zelo excessivo de seus pais. A urgência em viver os prazeres da vida fez com que abandonasse sem remoço o amor que surgia. Viajou o mundo, conheceu pessoas, novas culturas e novas decepções. No retorno, num encontro programado pelo destino, viu a chama acender. Mas ela não o perdôo. Aceitou suas desculpas, disse que um dia foi apaixonada por ele mas hoje são apenas bons amigos.

* Por Anaile Ribeiro Cardoso

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